segunda-feira, 9 de junho de 2008

Acerca da morte

Eu vou morrer. Um nanossegundo de terror e uma grande libertação são o que sinto depois de proferir estas palavras. Você também vai morrer. Um ano vai se passar, cem, mil anos, milhões de anos, e o que será? Fico vendo ruínas dessas cidades antigas. É como se a realidade de cada tempo fosse um grande palco e chegasse uma hora em que o show acabasse. Os atores se desfazem de seus personagens, o cenário é desarmado, as pessoas vão embora, as luzes se apagam. Como estará o Rio de Janeiro daqui a cem mil anos? O meu quarto. A minha rua. O maracanã. “Infinito é realmente um dos deuses mais lindos”. E apavorantes também. Tenho por convicção pessoal que a morte é só uma passagem de uma vida imortal. A vida da nossa essência, a vida do nosso espírito. Mas a perspectiva de ser imortal, parando para pensar, me assusta tanto quanto a de ser mortal. A diferença entre uma e outra é a do tudo e do nada. Em uma você estará vivo para sempre e em outra você estará morto para sempre, mas, em ambas, isso será para todo o sempre. A diferença é que eu prefiro acreditar que estarei vivo. A fé é uma questão de escolha, digo e repito. Os antropólogos afirmam que a religião existe porque o homem é o único animal que sabe de sua morte. Nós, os religiosos, sabemos que há muitas outras diferenças entre nós e os animais, ainda que haja cavalares proximidades. A grande questão que se coloca, sim, em nossas vidas é o medo da morte. Todos o temos, mas estive pensando o quanto ela (a iniludível) é necessária para o universo (e para nós próprios também, arrisco), para que outras vidas possam vir, melhores ou piores. É a única coisa sobre a qual não podemos transigir, nós, intransigentes que somos. A vida nos cobra implacavelmente a nossa caridade em deixar que outras vidas e tempos venham. Saber que se vai morrer pode dar medo, mas é igualmente libertador. Um destes artistas contemporâneos, em uma mostra, concretizou essa proposta em um imenso telão com imagens de milhares de anônimos dizendo “eu vou morrer”. O visitante podia igualmente participar entrando em uma cabine e gravando a si próprio falando a malfadada frase. De repente é aí que está a lógica de nossa igualdade universal: Estamos todos sujeitos à mesma Lei que diz que todos iremos morrer. Saber morrer, no fim das contas, é uma grande experiência de humildade.

2 comentários:

Fabiana Mendonça disse...

Vc tá muito imperativo! rsrs..Eu já tinha atualizado.
O senhor que anda muito inspirado!Pode continuar assim...tá ficando “bacaninha” isso aqui!hahaha....
Beijooooo

Anônimo disse...

Engraçado, que às vezes esqueço que um dia irei "morrer". E quando lembro soa um pouco assustador, sim. Mas é a única certeza que temos nesse mundo.
Agora, saber morrer, já é outra história...
Acho que o importante é saber viver. Sabendo viver, a morte parece algo bem melhor e menos "assustador"

P.A.Z