segunda-feira, 23 de junho de 2008

locked in

Quando tenho crises de depressão a criatividade me falta. É como se toda tristeza e angústia potencializada fosse capaz de demolir as delicadas estruturas da alegria e da beleza. Não sei bem se há motivos para ela, que chega sem ser convidada e quando vejo, já estou eu deitado no quarto escuro sem força para sequer levantar. (Não, senhores não há nada com os 25 anos recém-completos. Eles, muito pelo contrário, me dão alegria. Não, senhores, não quero ser depressivozinho poser chorando pelo mundo que não me ama.) Isso foi só pra dizer que a beleza da vida é capaz de me salvar. Seja ela no clichê de um amanhecer, ou num bom filme que me modifique a alma. Assim aconteceu hoje com “O escafandro e a borboleta”. A memória e a imaginação salvaram Jean Dominique Bauby da loucura quando, vítima de um avc aos 42 anos, ele, um jornalista bem sucedido, ex-editor da revista “Elle”, ficou completamente paralisado, menos dos movimentos das pálpebras do olho esquerdo. Através de piscadas de olho, Jean-Do “ditou” sua autobiografia letra por letra. O livro foi transformado em filme e este filme, hoje, mudou a minha vida. Segue um trecho do livro de Bauby:

"Por trás da cortina de pano roída pelas traças, uma claridade leitosa anuncia a aproximação da manhã. Doem-me os calcanhares, sinto a cabeça apertada num torno, e todo o meu corpo está encerrado numa espécie de escafandro. O meu quarto sai lentamente da penumbra. Observo pormenorizadamente as fotografias dos meus queridos, os desenhos das crianças, os cartazes, um pequeno ciclista de folha enviado por um camarada na véspera do Paris-Roubaix, e o cavalete que sustenta a cama onde estou incrustado há seis meses como um bernardo-eremita sobre o seu rochedo.
Não preciso de reflectir durante longo tempo para saber onde me encontro e recordar-me de que a minha vida sofreu uma reviravolta naquela sexta-feira, dia 8 de Dezembro do ano passado. Até essa altura, nunca tinha ouvido falar do tronco cerebral. Naquele dia descobri abruptamente essa peça fundamental do nosso computador de bordo, passagem obrigatória entre o cérebro e os terminais nervosos, quando um acidente cardio-vascular me deixou o dito tronco fora do circuito. Antigamente chamava-se-lhe “ligação ao cérebro” e a sua falta provocava muito simplesmente a morte. O progresso das técnicas de reanimação tornou o castigo mais sofisticado. É possível escapar, mas mergulha-se naquilo que a medicina anglo-saxónica baptizou muito justamente com o nome de locked-in-syndrome: paralisado da cabeça aos pés, o paciente fica encerrado dentro de si próprio, com o espírito intacto e os batimentos da pálpebra esquerda como único meio de comunicação.
Evidentemente, o principal interessado é o último a ser posto ao corrente dessas prerrogativas. Pela minha parte, tive direito a vinte dias de coma e algumas semanas de nevoeiro antes de me aperceber verdadeiramente da extensão dos danos. Só emergi verdadeiramente no fim de Janeiro, neste quarto 119 do Hospital Marítimo de Berck, onde agora penetram os alvores da madrugada.
É uma manhã vulgar. As sete horas, o carrilhão da capela recomeça a pontuar a fuga do tempo, de quarto em quarto de hora. Após a trégua da noite, os meus brônquios obstruídos põem-se a roncar ruidosamente. Crispadas sobre o lençol amarelo, as minhas mãos incomodam-me, sem que consiga determinar se estão a arder ou geladas. Para lutar contra o anquilosamente, desencadeio um movimento reflexo de alongamento que faz mover os braços e as pernas alguns milímetros. Tanto basta, por vezes, para aliviar um membro dorido.
O escafandro torna-se menos opressivo e o espírito pode vagabundear. como uma borboleta. Há tanta coisa a fazer. É possível elevar-me no espaço ou no tempo, partir a voar para a Terra do Fogo ou para a corte do rei Midas. É possível ir visitar a mulher amada, deslizar junto dela e acariciar o seu rosto, ainda adormecido. É possível construir castelos no ar, conquistar o Tosão de Ouro, descobrir a Atlântida, realizar os sonhos de criança e os sonhos de adulto.
Basta de dispersão. É sobretudo necessário que eu componha o início deste diário de viagem imóvel, para estar pronto quando o enviado do meu editor vier recolher este ditado feito letra a letra. Na minha cabeça, mastigo dez vezes cada frase, corto uma palavra, acrescento um adjectivo, e decoro o meu texto, parágrafo a parágrafo.
Sete e meia. A enfermeira de serviço interrompe o curso dos meus pensamentos. Segundo um ritual bem ensaiado, corre a cortina, verifica a traqueotomia e o gota-a-gota, e acende a televisão com vista à obtenção de informações. De momento, um desenho animado conta a história do sapo mais rápido do Oeste. E se eu formulasse o voto de ser transformado em sapo?"

Com a mesma dedicatória que Bauby fez a seus filhos neste livro, encerro este post: A vocês, desejo todas as borboletas!

Um comentário:

Fabiana Mendonça disse...

Acabei de ler a matéria que saiu no Globo falando do livro e do filme. E agora esse seu post...Ele morreu 10 dias depois do lançamento do livro. Mais do que reflexivo isso... Vc tem o livro? Me empresta!? Te devolvo rápido! Juro!rsrs...Quero ler o livro antes de ver o filme.
Beijooo